Abandono



A primeira impressão ao olhar o mais recente trabalho de Edu Marin é de uma desolação. A ausência da figura humana nas paisagens encontradas pelo artista é inquietante e isso parece ativar o imaginário do observador na reconstituição de uma estranha e fantasmática história de um tempo imaginado, ambientado naqueles lugares. Imagens de cidades e locais abandonados, vazios da presença humana, podem ser associadas às imagens de catástrofes, como as provocadas por enchentes, deslizamentos, vendavais, ou ainda por epidemias e acidentes nucleares. Mas as fotografias que temos nesta exposição são de uma desolação estranhamente perturbadora, pois não registram qualquer traço de uma tragédia visível. Essas imagens nos mostram um mundo objetivo às margens de uma natureza selvagem, onde os homens parecem ter sido lançados para a uma condição subalterna frente à objetividade do mundo, soterrados em seus sonhos e sob o peso de suas desilusões acumuladas ao longo do tempo.Sob um dia nublado e com névoa o ambiente deserto de uma piscina se assemelha àquele que Walter Benjamin identificou na reação do público ante as fotos de Eugène Atget das ruas de Paris, “deserta de homens”, nos anos 1900. Tanto nas fotos de Atget, quanto nas de Edu Marin, o que temos para ver é uma performance silenciosa dos objetos em sua pose petrificante, olhando-nos como já foi dito que nos olham. E a câmera do fotógrafo parece a de uma testemunha silenciosa, revelando lugares que não figuram nos guias turísticos. Nas imagens produzidas anteriormente pelo artista, casas soterradas pelos deslizamentos que atingiram a serra fluminense no ano passado e um cemitério de navios na cidade portuária de Santos, também trazem à tona a terrível imobilidade e o silêncio imponente das coisas imersas no caos e na lenta corrosão que transforma em sucata o que antes fora um exemplo da vontade humana de aparelhar o mundo e de se impor sobre seu tempo. E o tempo é algo que se apresenta nesse trabalho de duas formas distintas: como imagem congelada do fluxo contínuo das coisas e como um tempo que parece ter parado naqueles ambientes abandonados, um tempo que relega a tudo e a todos ao esquecimento.



 

(texto do folder da exposição no Centro Cultural São Paulo em agosto/12 )