A Volta Grande Que o Mundo Dá

 

No percurso, ao mesmo tempo errante e preciso, que dá forma à poética de um artista, Edu Marin veio aportar justamente ali, onde, de certa forma, ele havia partido: na cidade de São Paulo, no bairro da Vila Madalena, em que passou parte de sua infância e já teve ateliê. Vila Madalena, Friburgo, Xingu. Curiosa triangulação geográfica essa, que estabelece como pontos de parada a região norte do país, onde vem sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, a região serrana do Rio de Janeiro, devastada por uma enchente em 2011, e um dos bairros fashion de São Paulo, a Vila Madalena, que hoje, com a seca do sistema Cantareira, sofre com a falta d’água.

 

Olhando para o trabalho que Edu Marin vem construindo há mais de dez anos, sabemos que esse mapa poderia ainda abarcar a cidade Santos, onde fica um dos maiores portos da América Latina, Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, região cheia de cachoeiras e nascentes, imersa no clima úmido da mata atlântica, e mesmo o Rio Amazonas com sua potência e vastidão. Edu Marin vem traçando, ainda que não programaticamente,  um novo mapa do Brasil. Uma mapa no qual a água dos rios, mares e represas serve de condutor, um mapa que reflete, tal como um espelho, tudo aquilo que o rodeia.

 

A viagem começou em 1999 na Amazônia e virou a série “Onde nasci não passa um rio”. São fotografias em preto e branco nas quais o rio Amazonas aparece como signo de abundância e força. Tomadas a partir do interior de pequenos barcos, as fotos parecem buscar um ponto fixo, mesmo imersas em um rio em movimento. Algumas vezes, as imagens mostram pernas e pés de homens sentados na beira do barco, deixando-se levar pelo embalo do ritmo das águas. Outras fotos mostram o rio agitado, em meio à forte correnteza, e as pessoas que tentam, com a ajuda de remos, cordas e muita força, dirigir o rumo da embarcação.

 

O vigor da natureza aparece de outra maneira na série que o artista fez na cidade de Santos, “Santos, Valongo e Mont -Serrat”, de 2004. As imagens, também em preto e branco, sobretudo as do porto de Santos, mostram navios fora de uso, carcomidos pela ferrugem e engrenagens velhas e desgastadas. Concentrando-se nas superfícies das embarcações, nos detalhes dessas grandes máquinas (uma hélice quebrada, o paredão formado pelas laterais dos navios), o artista revela as marcas do tempo, que estão por todo lado. Em franco contraste com a imagem da potência econômica, “o porto mais movimentado da América Latina”, os retratos feitos por Edu Marin mostram um cenário desolador de decadência e destruição.

 

Já as fotografias realizadas no parque de Itatiaia, em 2010, foram feitas em um clube de campo: cadeiras e espreguiçadeiras plásticas, escadas para entrara na piscina, brinquedos de crianças como o trepa-trepa e o escorregador, deixados ao relento, aparecem impregnados pelo clima úmido da mata que os cerca e, aos poucos, a natureza avança sobre as construções: uma parede repleta de fungos, o limo escuro no cimento em volta da piscina, o mato crescendo desordenadamente. As fotos têm um colorido rebaixado, pois tudo aparece palidamente, sob uma neblina que opera como índice de indiferenciação. Há algo de cinematográfico nessas imagens que foram ampliadas em tamanhos grandes. Elas parecem compor uma narrativa sobre silêncio, placidez e morte. Uma narrativa, talvez, menos aterrorizante do que a presença do sobrenatural em “O Iluminado”, de Kubrick, como o título da série de fotografias de Marin, “Shining”, pode sugerir, e mais melancólico, como “O pântano”, de Lucrecia Martel.

 

Há, ainda, o ensaio realizado na região serrana do Rio de Janeiro, em 2011, depois da enchentes que destruíram boa parte das cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Nessas imagens, o artista mostra a destruição das casas dos moradores locais e pequenos comércios. Com vistas do interior desses espaços (ao menos daqueles que ainda ficaram de pé) e algumas das fachadas, que mostram as ruas cheias de lama, o artista faz uma espécie de inventário. Um pouco como as imagens da cidade de Pompéia, as fotos de Edu Marin mostram os fragmentos que se conservaram depois do alagamento. Sobraram móveis mais pesados, como colchões, camas, sofás – alguns erguidos do chão para que não se perdessem completamente, outros entalados na janela, talvez numa tentativa de retirar de casa os bens mais valiosos – armários colocados a certa altura do chão e elementos decorativos como quadros, muitos deles com imagens religiosas, além de roupas e utensílios domésticos. Em meio à lama e aos escombros que, naquela altura, já estavam sendo removidos, somos convidados, a partir das pistas deixadas pelos objetos, a reconstituir os ambientes e imaginar seus habitantes. As marcas da inundação se fazem presentes nas paredes, nos pisos e, nos casos mais trágicos, na própria destruição de partes dos imóveis atingidos. Uma das fotos desse ensaio foi escolhida para integrar a exposição no Ateliê397. Trata-se de um cômodo praticamente vazio, onde só uma cadeira aparece, caída, em um canto do recinto. A cor rosada das paredes e essa cadeira são os únicos índices propriamente domésticos da imagem. No centro da foto, um losango de luz ilumina o cenário. Mesmo sem identificar bem de onde vem essa mancha solar, ela indica a calmaria, depois da tempestade. As marcas da enchente impregnam o piso e as paredes, há um buraco feitos as pressas em uma das paredes para que a água escoasse. As fotos ficam a meio caminho entre um olhar documental mais jornalístico (a ausência de pessoas nas fotos e o nítido compromisso de fotografar apenas aquilo que encontrou demonstram isso) e um olhar intimista, com cenas domésticas retratadas, ainda que durante uma tragédia: o quarto da moça, com uma das paredes completamente destruída, guarda ainda suas bolsas e roupas arrumadas. Na parede de trás, prestes também a desabar, uma corda sustenta bandeirinhas que formam a palavra “Peace”.

 

Esse meio caminho entre um olhar objetivo e neutro e um olhar mais pessoal e engajado marca as fotografias de Edu Marin. É dessa posição, delicadamente sustentada ao longo de sua trajetória, que emerge a potência política de seu trabalho. Como um cartógrafo, Edu Marin dirige-se a determinados locais com a finalidade de retratá-los. De saída, pode-se dizer que há um compromisso em não dourar a realidade, mas mostrá-la tal como ela se apresenta. Mesmo diante de situações trágicas, não há heróis e não há vítimas. Disso não resulta, contudo, uma visão fatalista pouco atenta aos estragos de políticas sociais desatentas, de uma dinâmica social bastante perversa e inconsequente. O artista não cede à uma visão mais estetizante da arte na qual a linguagem, a capacidade de formalização do artista, o domínio de sua técnica, se sobrepõe ao assunto retratado. O olhar de Edu Marin ao detalhe, ao fragmento, ao resto, àquilo que está fora dos holofotes, faz com que ele construa uma imagem do Brasil refratária a qualquer modelo mais imediato. Ele não retrata o Brasil alegre do carnaval, nem o Brasil triste do samba erudito. Como um pesquisador atento ao detalhe, às pequenas narrativas, atrelado ao tempo lento da experiência vivida cotidianamente, Edu Marin vai construindo uma série de retratos, mas nenhum com ambição totalizante ou com a pretensão de sintetizar o Brasil.

 

Em sua recente viagem ao Xingu, em 2014, cujas fotos (pelo menos por enquanto) não foram impressas, o artista pode ver os impactos da implementação de Belo Monte na região. O trabalho está sendo editado e apenas uma foto – de um trecho do rio Xingu, belíssimo, com pedras grandes e quedas d’água, que vai desaparecer com a construção da hidrelétrica – integra a presente exposição. Mesmo se não soubéssemos que o rio ali vai secar e que a paisagem em breve se modificará completamente, a decisão de fotografar a paisagem em preto e branco com um enquadramento clássico, dá certa melancolia à paisagem.

 

A instalação que o artista faz no Ateliê397 é um ponto de chegada. Um ponto em que o artista abandona, ainda que provisoriamente a prática da fotografia, para fazer uma obra diretamente no espaço expositivo. Trazer litros e litros de água para o interior do espaço, por um lado, é como criar ali um aparato permanente de captação do meio. É como se a sala alagada funcionasse como uma máquina fotográfica que registra, por conta de sus superfície reflexiva,  todo o meio ao seu redor. Diferente da maioria de suas fotografias anteriores, as imagens formadas na superfície da água não vão refletir paisagens, mar, rio, vegetação. Apenas o ambiente fechado e pouco iluminado do galpão. O represamento das águas, a canalização de rios, os piscinões criados contra enchentes: a presença da água em grandes cidades, como São Paulo, muitas vezes é apartada da natureza.

 

O material utilizado na construção da obra, basicamente lona e cola, remete às construções da periferia da cidade: desde as barracas de lona das ocupações de terra a lona usada na construção de puxadinhos e coberturas improvisadas. A abertura da exposição, quando o artista organiza um “churrasco com salsicha e cerveja” é um momento no qual o clima dos churrascos nas lajes, tão típicos em São Paulo, é abertamente evocado. Convidando a todos para inaugurar sua piscina nova, recém feita, o artista organiza o evento.

 

A obra de Edu Marin devolve ao espaço do Ateliê397 algo de sua natureza mais concreta: a lembrança de que o galpão expositivo era uma casa modesta, antiga, de fundos. Uma típica casa da Vila Madalena, habitada por famílias de classe média baixa, numa época em que o bairro ainda se urbanizava. Construído sobre um mangue, a Vila Madalena foi durante anos um bairro de difícil acesso e com inúmeras precariedades infra-estruturais. O pesado investimento do setor imobiliário na região nos últimos tempos tem dados ao bairro outros contornos, o que faz do espaço do Ateliê397 um pequeno ponto onde o passado aparece, resistindo ainda às modificações arquitetônicas em curso nos dias de hoje. Novamente, é a atenção do artista ao detalhe, ao fragmento, ao que restou de um processo social, que está em jogo. O alagamento reforça a sensação de que estamos diante de algo que, como a paisagem do Xingu, “já é passado”. Ele envolve o espaço num clima de abandono e precariedade semelhante às imagens de Friburgo que, embora não diga respeito às inúmeras atividades que o espaço realiza cotidianamente, sendo ocupado constantemente por muitos artistas, diz respeito à invisibilidade que ele ocupa em relação aos grandes agentes do mercado e às políticas governamentais.

 

Por último, mas não menos contundente, está a escolha em realizar o trabalho numa época em que o abastecimento de água na cidade de São Paulo encontra-se seriamente comprometido. Num momento em que somos instados a economizar água no nosso cotidiano, o dispêndio que esse trabalho realiza deve ser entendido como gesto político questionador. Que se olhe ao redor, nas ruas próximas ao Ateliê, e encontraremos inúmeros empreendimentos imobiliários em plena construção. Quanto de água eles gastam para colocar em pé seus imponentes edifícios? Para quem quiser fazer as contas, a construção de um metro cúbico de concreto gasta, em média, de 160 a 200 litros de água. A utilização de água para a construção civil, para a indústria e para uma série de outras atividades econômicas é tolerada. Na arte, seu uso certamente será questionado. O produto da arte é menos palpável e, como a água, seus múltiplos significados escorrem por entre os dedos.

 

A triangulação proposta pelo artista neste projeto: Vila Madalena, Friburgo, Xingu, propõe que as realidades dessas diferentes regiões sejam vistas em conjunto. A construção de Belo Monte faz com que a paisagem local apareça agora sob o signo da melancolia. As fotos de Friburgo depois da enchente, revelam o caráter destrutivo, por vezes trágico, das forças naturais. O processo de gentrificação da Vila Madalena faz com que desapareçam, submersos em águas sujas, a memória coletiva de um bairro. Melancolia, tragédia, esquecimento. Esses parecem ser os significantes que surgem com o avanço do atual “progresso”.

 

THAIS RIVITTI